terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

sobre ser mãe

"Nós estamos sentadas almoçando quando minha filha casualmente menciona que
ela e seu marido estão pensando em 'começar uma família'.
'Nós estamos fazendo uma pesquisa', ela diz, meio de brincadeira. 'Você
acha que eu deveria ter um bebê?'
'Vai mudar a sua vida,' eu digo, cuidadosamente mantendo meu tom neutro.
'Eu sei,' ela diz, 'nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de
férias espontâneas.. .'
Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha,
tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca
vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas
físicas de dar à luz irão se curar, mas que tornar-se mãe deixará uma
ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável.
Eu penso em alertá-la que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar
'E se tivesse sido o MEU filho?' Que cada acidente de avião, cada incêndio
irá lhe assombrar. Que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome,
ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer.
Olho para suas unhas com a manicure impecável, seu terno estiloso e penso
que não importa o quão sofisticada ela seja, tornar-se mãe irá reduzí-la ao
nível primitivo da da ursa que protege seu filhote. Que um grito urgente de
'Mãe!' fará com que ela derrube um suflê na sua melhor louça sem hesitar
nem por um instante.
Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos ela investiu em
sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela
maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia ela entrará
numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela
vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo
para casa, apenas para ter certeza de que o seu bebê está bem.
Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão
rotina. Que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino ao
invés do feminino no McDonald's se tornará um enorme dilema. Que ali mesmo,
em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de
independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um
molestador de crianças possa estar observando no banheiro.
Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, ela se questionará
constantemente como mãe.
Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da
gravidez ela perderá eventualmente, mas que ela jamais se sentirá a mesma
sobre si mesma. Que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor
quando ela tiver um filho. Que ela a daria num segundo para salvar sua
cria, mas que ela também começará a desejar por mais anos de vida -- não
para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os
deles.
Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias se tornarão
medalhas de honra.
O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma
como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um
homem que tem cuidado ao passar pomadinhas num bebê ou que nunca hesita em
brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará
por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas.
Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com
as mulheres que através da história tentaram acabar com as guerras, o
preconceito e com os motoristas bêbados.
Eu espero que ela possa entender porque eu posso pensar racionalmente sobre
a maioria das coisas, mas que eu me torno temporariamente insana quando eu
discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro de meus filhos.
Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho
aprender a andar de bicicleta. Eu quero mostrar a ela a gargalhada gostosa
de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela
primeira vez. Eu quero que ela prove a alegria que é tão real que chega a
doer. O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho
lágrimas nos olhos.
'Você jamais se arrependerá', digo finalmente.
Então estico minha mão sobre a mesa, aperto a mão da minha filha e faço uma
prece silenciosa por ela, e por mim, e por todas as mulheres meramente
mortais que encontraram em seu caminho este que é o mais maravilhoso dos
chamados. Este presente abençoado de Deus...."(Autora Desconhecida)

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